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Bancos podem ter agido de forma coordenada no caso Americanas, diz juíza

📷 Tércio Teixeira/Folhapress
RIO DE JANEIRO, RJ, 27.03.2020 - Lojas Americanas: PF suspeita de atuação dos bancos
RIO DE JANEIRO, RJ, 27.03.2020 - Lojas Americanas: PF suspeita de atuação dos bancos

Publicado em 09/07/2026

Fonte: UOL - Economia

A decisão judicial que autorizou busca e apreensão contra executivos de bancos no âmbito das investigações de fraude das Americanas diz que há indícios de que os bancos Itaú e Santander atuaram possivelmente de forma coordenada para ocultar operações financeiras realizadas pela varejista. A decisão, que foi vista pelo UOL, permitiu a ação da Polícia Federal na segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada no dia 25 de junho.

Os bancos negam envolvimento na fraude. O Itaú diz que "sofreu perdas bilionárias com o episódio" e que "comprovou a regularidade de sua conduta e da atuação de suas equipes por meio de farta documentação apresentada à Justiça". O Santander "reitera que é uma das vítimas das fraudes relacionadas à Americanas" e que "o fato de a Americanas ter contratado operações bancárias reais não quer dizer que o banco ou seus executivos tenham participado das fraudes contábeis investigadas".

Entenda

Segundo a investigação policial, diversos bancos emitiram documentos para fins de auditoria sem a informação de que as Americanas possuíam operações de risco sacado com aquelas instituições.

A decisão judicial cita especificamente mensagens de executivos dos bancos Itaú e Santander. O entendimento da juíza Giovana Calmon, da 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, é de que há indícios de que os dois bancos atuaram possivelmente em conjunto, "sendo o aceite de um decisivo para que o outro prosseguisse como solicitado" pelas Americanas.

Conforme a investigação, com a omissão das informações sobre risco sacado, funcionários do alto escalão dos bancos teriam atuado "para que as manipulações ao mercado fossem viabilizadas", e "teriam sido indispensáveis para as fraudes ocorrerem e se perpetuarem ao longo do tempo", diz a decisão.

O papel dos bancos na fraude da Americanas é um dos pontos em discussão na investigação há anos. Em agosto de 2024, informações reveladas pelo UOLmostraram que os bancos chegaram a enviar à firma que fazia a auditoria da varejista, por engano, documentos que registravam as operações financeiras de risco sacado. Ao perceber o deslize, as instituições financeiras mandaram versões corrigidas dos documentos, em que o risco sacado desaparecia.

Risco sacado e omissões no balanço financeiro

O risco sacado é uma operação financeira na qual um banco adianta pagamentos a fornecedores de uma empresa, e ela passa a ter uma dívida com o banco. Segundo as investigações, as Americanas não reportaram essa dívida de forma devida ao mercado e usaram essa operação para esconder um rombo bilionário na empresa, caracterizando uma fraude financeira.

Como essas operações não apareciam nas cartas de circularização emitidas pelos bancos, as Americanas conseguiram esconder o risco sacado da auditoria externa e do mercado, diz a investigação. A carta de circularização é um documento emitido pelos bancos para atestar as operações financeiras de empresas em processos de auditoria.

Para o MPF (Ministério Público Federal), houve "conivência e atuação decisiva dos bancos credores das empresas do grupo Americanas no processo de circularização da dívida bancária perante as auditorias", destaca a decisão.

Um executivo de banco disse ao UOL que havia mais de uma possibilidade de como reportar as dívidas de risco sacado no balanço, e que os executivos das Americanas diziam aos bancos que optariam por divulgar as operações na "conta fornecedor" (linha contábil para colocar obrigações financeiras com parceiros comerciais) e não como dívida bancária. A exigência para esse caso seria que as Americanas incluíssem uma nota explicativa em seu balanço, tratando do tema.

"A companhia escolhe se quer colocar como dívida de fornecedor, e incluir uma nota dizendo de quanto é a sua dívida com o fornecedor, ou se quer colocar como dívida bancária financeira. Na hora que vem a carta de circularização, os executivos das Americanas falam: a gente vai declarar isso na conta fornecedor. Então não pode estar na carta de circularização como dívida bancária. E os bancos concordam com essa interpretação porque era uma interpretação válida naquele momento. O fato de, depois, a Americanas não colocar isso no balanço, ou como dívida bancária, ou na conta do fornecedor com a nota explicativa, não é responsabilidade do banco", diz o executivo.

Mensagens

A decisão judicial cita mensagens de executivos dos bancos Itaú e Santander, em diálogos com o ex-diretor das Americanas Fabio Abrate, que fechou acordo de delação com o MPF.

Em uma das mensagens, Abrate pergunta para um executivo do Itaú: "Vamos conseguir retirar a informação da carta? Novamente, isso é muito importante para nós. Precisamos da sua ajuda."

Ao que o executivo do Itaú responde: "Pedido não é trivial e estamos tentando ver como temos conforto para seguir e que funcione para vcs".

Em outro trecho, o mesmo executivo do Itaú diz: "Pergunta aqui: sabe como outras grandes empresas estão lidando com o caso? Existem várias outras empresas com operação semelhante e ainda estou levantando internamente, mas a priori ninguém nos solicitando algo semelhante".

A decisão judicial destaca que as mensagens sugerem um "desconforto dos representantes dos bancos em acatar a redação das cartas de circularização sem as informações verídicas sobre as operações de antecipação de recebíveis". Mas, ainda assim, elas "foram enviadas às auditorias com a omissão" das operações, conclui.

Atuação coordenada

Em outra troca de mensagens, com outro executivo do Itaú, o ex-diretor das Americanas diz: "Agora o Santander só quer enviar se vocês irem (sic) juntos com eles. A postura da turma aí vai nos prejudicar bastante".

Ao que o executivo do Itaú responde: "Conversa está duríssima e não está evoluindo..."

Abrate então envia prints das cartas elaboradas para o Santander, e diz: "Esse foi o ângulo que o Santander encontrou. Com isso, ele eliminou da resposta a operação. Mandou a nova carta de circularização direto para os auditores sem anexar a nova carta de solicitação".

Segundo a decisão judicial, as mensagens permitem que se conclua "que os bancos Santander e Itaú atuaram possivelmente de forma coordenada", "sendo o aceite de um decisivo para que o outro prosseguisse como solicitado pela Americanas".

Em nota, o Itaú diz que "os registros deixam claro que o Itaú recusou, de forma firme e independente, os pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização de balanços". Diz ainda que as cartas emitida pelo banco "seguiam modelos de mercado próprios da instituição, sendo documentos claramente distintos e sem nenhuma relação com os padrões de outros bancos".

O Itaú diz ainda que os documentos e comunicações que constam nos autos "provam o caráter regular das interações e a ausência de qualquer alinhamento, coordenação ou combinação com outras instituições financeiras para adulterar dados ou ocultar informações".

'Risco com o regulador'

A decisão também traz mensagens envolvendo executivos do Santander. Em um dos diálogos, Abrate pede retorno a um executivo, que responde:

"Estamos em cima do tema, mas não tenho resposta ainda. Como você disse, tema muito sensível. (...) no final, é um risco grande com o regulador que temos que bancar". No dia seguinte, o mesmo executivo do Santander diz: "Já conseguimos o mais difícil que foi resolver, e trazer o Itaú pra dentro. Vamos resolver!"

Mais adiante, a decisão traz um e-mail de outro executivo do Santander para executivos das Americanas, que diz: "Problema resolvido por aqui... Segue carta de Lasa e B2W. Com sign off de vocês encaminhamos p/ o auditor".

Em nota, o Santander disse que as irregularidades investigadas no caso Americanas nasceram dentro da empresa, "a partir da manipulação de sua própria contabilidade, inclusive por meio de verbas de propaganda cooperada (VPCs) fictícias e de demonstrações financeiras cuja elaboração, classificação, aprovação e divulgação eram de responsabilidade exclusiva de seus administradores".

O banco diz também que "as operações de confirming [risco sacado] sequer estão no cerne da fraude" e que "as operações existiram, os contratos eram válidos e os fornecedores foram pagos".

O Santander diz ainda que seus executivos "refutam qualquer participação em fraude e afirmam categoricamente que atuaram no âmbito regular de suas funções profissionais e jamais tiveram conhecimento de manipulação dos balanços da Americanas".

Veja a íntegra da nota do Itaú

Em relação à operação Disclosure, o Itaú Unibanco, embora não seja objeto da investigação, esclarece que colabora ativamente com as autoridades desde 2023, prestando todas as informações sobre o caso Americanas. As investigações oficiais já demonstraram que a varejista foi palco de uma das maiores fraudes corporativas do País.

O banco, que sofreu perdas bilionárias com o episódio, comprovou a regularidade de sua conduta e da atuação de suas equipes por meio de farta documentação apresentada à Justiça. Os registros deixam claro que o Itaú recusou, de forma firme e independente, os pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização de balanços. Essas cartas seguiam modelos de mercado próprios da instituição, sendo documentos claramente distintos e sem nenhuma relação com os padrões de outros bancos.

Todos os documentos e comunicações que fundamentam essa lisura constam nos autos desde 2024. Eles provam o caráter regular das interações e a ausência de qualquer alinhamento, coordenação ou combinação com outras instituições financeiras para adulterar dados ou ocultar informações. Cada instituição atuou de forma isolada, e o Itaú rechaçou de pronto as investidas da varejista.

O Itaú reitera que sempre atuou com rigor ético e regulatório, apoiando e confiando no trabalho das autoridades para a elucidação definitiva das irregularidades praticadas pela antiga administração da varejista.

Veja a íntegra da nota do Santander

O Santander reitera que é uma das vítimas das fraudes relacionadas à Americanas, que geraram prejuízo estimado em quase R$ 4 bilhões à instituição.

As alegações partem de conclusões imprecisas, feitas por uma pessoa confessadamente envolvida nos ilícitos apurados. O fato de a Americanas ter contratado operações bancárias reais, inclusive de risco sacado, não quer dizer que o banco ou seus executivos tenham participado das fraudes contábeis investigadas.

As irregularidades nasceram dentro da Americanas, a partir da manipulação de sua própria contabilidade, inclusive por meio de verbas de propaganda cooperada (VPCs) fictícias e de demonstrações financeiras cuja elaboração, classificação, aprovação e divulgação eram de responsabilidade exclusiva de seus administradores. Vale reiterar que as operações de confirming sequer estão no cerne da fraude, na verdade foram a forma encontrada para pagar os fornecedores, tendo em vista que os VPCs falsos, criados no balanço, não geravam caixa real. Ou seja, as operações existiram, os contratos eram válidos e os fornecedores foram pagos.

O banco reafirma seu compromisso institucional com a legalidade, a transparência e a mais absoluta ética empresarial, e permanece à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários à completa elucidação dos fatos.

Seus executivos também refutam qualquer participação em fraude e afirmam categoricamente que atuaram no âmbito regular de suas funções profissionais, jamais tiveram conhecimento de manipulação dos balanços da Americanas. Ambos prestarão os esclarecimentos necessários às autoridades competentes.