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Trabalhadora doméstica: desigualdades marcam realidade de 5,6 milhões no Brasil

📷 Tânia Rêgo/Agência Brasil
Trabalho doméstico no Brasil é feminino e negro.
Trabalho doméstico no Brasil é feminino e negro.

Publicado em 27/04/2026

Fonte: TVT News

Dados do DIEESE mostram que trabalhadora doméstica segue com baixos salários, alta informalidade e baixa escolaridade

Dia 27 de abril é o Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica e dados do DIEESE mostram que o trabalho doméstico permanece fortemente marcado por desigualdades de gênero e raça, além de apresentar baixos rendimentos, alta informalidade e dificuldades de acesso a direitos trabalhistas.

Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica: dados mostram o fosso social da categoria

De acordo com levantamento baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), o Brasil contava, no quarto trimestre de 2025, com cerca de 5,6 milhões de pessoas ocupadas no trabalho doméstico. Desse total, 92% eram mulheres . A predominância feminina escancara a histórica divisão sexual do trabalho, que atribuiu às mulheres as atividades de cuidado e manutenção dos lares.

O recorte racial evidencia ainda mais a desigualdade: 68% das trabalhadoras domésticas são negras . Entre as mulheres negras ocupadas, uma em cada sete atua no trabalho doméstico, o que corresponde a 14,5% desse grupo . Os números refletem o impacto de processos históricos, como a escravidão e a exclusão social, na configuração atual do mercado de trabalho.

Mais da metade das trabalhadoras domésticas não concluiu a educação básica, aponta DIEESE

O trabalho doméstico no Brasil continua sendo um retrato das desigualdades estruturais que atravessam o mercado de trabalho. Dados recentes mostram que a atividade permanece fortemente marcada por recortes de gênero e raça, além de apresentar baixos rendimentos, alta informalidade e dificuldades de acesso a direitos trabalhistas.

trabalhadora-domestica-desigualdades-marcam-realidade-de-5-6-milhoes-no-brasil-trabalho-domestico-no-brasil-e-feminino-e-negro-tvt-newsFonte: DIEESE

Trabalho doméstico no Brasil é feminino e negro

A trabalhadora doméstica no Brasil tem um perfil bem definido: mulher e, majoritariamente, negra. Segundo os dados, 68% das profissionais do setor são negras, evidenciando como o trabalho doméstico ainda está ligado a desigualdades raciais históricas.

Entre as mulheres negras ocupadas, uma em cada sete atua como trabalhadora doméstica. Esse dado revela como o legado da escravidão e da exclusão social ainda influencia a inserção dessa população no mercado de trabalho.

Essa concentração não é aleatória. Ela reflete a dificuldade de acesso a oportunidades mais valorizadas, além de desigualdades no acesso à educação e à qualificação profissional.

federacao-domesticas-reinvindica-mesmos-direitos-diaristas-licia-rubinstein-agencia-ibge-noticias-tvt-newsA trabalhadora trabalhadora doméstica ganha 59% menos do que outras mulheres ocupadas. Foto: Licia Rubinstein/Agência IBGE Notícias

Trabalhadora doméstica recebe menos e sustenta famílias

Mesmo sendo essencial para o funcionamento da sociedade, o trabalho doméstico é um dos mais desvalorizados economicamente.

Em média, a trabalhadora doméstica ganha 59% menos do que outras mulheres ocupadas. Na prática, isso significa uma perda mensal de cerca de R$ 1.932 e mais de R$ 23 mil ao longo de um ano.

Apesar disso, essas mulheres desempenham um papel central na economia familiar: 58% são chefes de domicílio. Ou seja, mesmo com renda menor, são responsáveis pelo sustento de suas casas.

Informalidade ainda é regra no trabalho doméstico

A ampliação de direitos trabalhistas nos últimos anos não foi suficiente para transformar a realidade da maioria das trabalhadoras domésticas.

Hoje, 76% delas trabalham sem carteira assinada. Além disso, 65% não contribuem para a Previdência Social.

Na prática, isso significa ausência de direitos como férias remuneradas, 13º salário e FGTS, além de insegurança em relação à aposentadoria e benefícios sociais.

A informalidade permanece como um dos principais desafios da categoria, revelando limites na efetivação das leis existentes.

Perfil da categoria mostra envelhecimento e mudança no trabalho

Outro aspecto que chama atenção é o envelhecimento da categoria. Mais da metade das trabalhadoras domésticas tem 45 anos ou mais, enquanto a presença de jovens é menor em comparação com outras ocupações.

Esse dado pode indicar tanto a permanência prolongada na atividade quanto a dificuldade de inserção em outros setores do mercado de trabalho.

Além disso, o modelo de contratação também está mudando. O número de mensalistas caiu, enquanto o de diaristas cresceu, indicando maior flexibilização — e, ao mesmo tempo, menor estabilidade.


Baixa escolaridade limita oportunidades

A escolaridade é outro fator que ajuda a explicar a desigualdade no trabalho doméstico.

Mais da metade das trabalhadoras não concluiu a educação básica, e 39% não terminaram o ensino fundamental. Esse cenário reduz as possibilidades de acesso a empregos com melhores salários e condições.

A falta de acesso à educação de qualidade ao longo da vida acaba reforçando o ciclo de desigualdade, mantendo essas mulheres em ocupações precarizadas.


Pobreza atinge parcela significativa das trabalhadoras domésticas

Os impactos dessa estrutura desigual aparecem de forma direta nas condições de vida.

Em 2024, cerca de 25% das trabalhadoras domésticas estavam em situação de pobreza, incluindo 6% em extrema pobreza.

Esse dado evidencia que, mesmo trabalhando, uma parcela significativa dessas mulheres não consegue garantir renda suficiente para uma vida digna.


Desafios para a valorização da trabalhadora doméstica

O cenário aponta para a necessidade de políticas públicas que enfrentem as desigualdades estruturais do setor.

Entre os principais desafios estão:

  • reduzir a informalidade
  • ampliar o acesso à Previdência
  • garantir cumprimento de direitos trabalhistas
  • investir em educação e qualificação
  • combater desigualdades de gênero e raça

A história do trabalho doméstico no Brasil mostra que os avanços conquistados até aqui foram resultado da organização coletiva das trabalhadoras. O fortalecimento dessas mobilizações segue sendo fundamental para ampliar direitos e melhorar as condições de trabalho.

27 de abril: Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica

O 27 de abril é reconhecido como o Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica, uma data que busca dar visibilidade às condições de trabalho dessa categoria e reforçar a importância da garantia de direitos. Mais do que uma homenagem, o dia também cumpre um papel político ao chamar atenção para a necessidade de valorização ddas trabalhadores domésticas.

Qual a história de Laudelina de Campos Melo

A luta por direitos das trabalhadoras domésticas no Brasil está profundamente ligada à trajetória de Laudelina de Campos Melo, uma das principais lideranças da categoria no país.

Nascida em 1904, Laudelina foi uma mulher negra que dedicou sua vida à organização das trabalhadoras domésticas. Em um contexto marcado por forte discriminação racial e de gênero, ela atuou na construção de espaços de mobilização e reivindicação de direitos.

Na década de 1930, Laudelina fundou associações voltadas à defesa das trabalhadoras domésticas, buscando melhores condições de trabalho e reconhecimento profissional. Sua atuação foi fundamental para dar visibilidade à categoria e para fortalecer a luta por direitos trabalhistas.

A história de Laudelina evidencia como a organização coletiva foi — e continua sendo — um instrumento essencial para enfrentar a precarização do trabalho doméstico.

Qual a história da Associação de Empregadas Domésticas de Santos, considerada o primeiro sindicato da categoria no Brasil

A materialização da visão política de Laudelina de Campos Melo ocorreu na cidade litorânea de Santos, no estado de São Paulo, no ano de 1936. Foi lá que ela fundou a Associação de Empregadas Domésticas de Santos, a primeira entidade de classe focada exclusivamente na organização e na defesa dos direitos dessa categoria no Brasil.

A fundação da Associação foi um ato de extrema ousadia. Em 1936, a elite brasileira, que ainda carregava os vícios do período escravocrata recém-abolido, não aceitava que as mulheres que limpavam suas casas e criavam seus filhos tivessem qualquer tipo de direito reivindicado. Essa realidade parece não ter se alterado no século XXI.

A entidade criada por Laudelina funcionava como um ponto de apoio fundamental: oferecia assistência jurídica, acolhimento para mulheres vítimas de violência patronal, espaços de alfabetização e, acima de tudo, um ambiente de formação de consciência política.

Infelizmente, a existência formal da Associação de Santos foi interrompida de maneira abrupta. Com a instauração do Estado Novo em 1937, a ditadura varguista proibiu o funcionamento de diversas organizações civis e sindicais independentes.

A entidade foi fechada compulsoriamente, mas o impacto ideológico de sua criação jamais foi apagado. O pioneirismo da Associação de Empregadas Domésticas de Santos abriu os caminhos para a retomada do movimento nas décadas seguintes, influenciando diretamente a criação de novos sindicatos nos anos 1960 e 1980.

O espírito de resistência forjado em Santos foi determinante para a organização da categoria durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1988, que garantiu os primeiros direitos básicos, e mais tarde, na histórica aprovação da Emenda Constitucional 72, a PEC das Domésticas.